“Nossa
loucura será a causa de nossa ruína.”
As palavras ecoavam devagar
nos pensamentos daquela que era uma e nenhuma. Acomodada na cadeira de
escritório, com os braços postos sobre os cotovelos na mesa de madeira, ela
observava seu trabalho. Era uma bela peça, tinha que assumir.
Jean firmou os pés no chão
e impulsionou a cadeira de forma a atravessar o cômodo, parando em frente a uma
grande prateleira, cheia de discos e CD’s, que cobria toda a parede. – Loucura.
– Murmurou, enquanto se levantava para observar os discos, passando os dedos
sobre varias capas sem escolher nenhum em especial. – O que ele entende de
loucura? – Puxou um dos discos, voltando a se sentar.
Novamente, deu um forte
impulso na cadeira e deslizou para o outro lado da sala, onde o toca discos
exibia toda sua antiga gloria... Com todo o cuidado possível, tirou o disco da
capa e colocou no aparelho, posicionando em seguida a agulha em seu devido
lugar. Em poucos momentos notas suaves encheram o cômodo e Jean sorriu de lado.
Voltou, devagar, ao lugar
de origem. Estava, mais uma vez, parada em frente a mesa de madeira que ficava
entre as duas paredes anteriormente descritas. A sua frente abria-se uma grande
parede de vidro, lá em baixo, Monte Carlo brilhava em sua artificial luz
noturna. Atrás dela, encostada na ultima
parede do cômodo, a certa distancia da porta, estava uma enorme cama de casal e
pendurado sobre a cama, uma caixão de vidro. Algo muito parecido com uma múmia
descansava ali dentro.
A mulher ainda observava
sua obra, um rosto posto sobre um manequim branco que outrora não tinha
expressão... Junto a melodia lenta que enchia o cômodo, chegou a voz.
Você
está aí, Vibo?
Ela sorriu, um sorriso doce
que contradizia completamente a expressão de predador feroz que seus olhos
verdes demonstravam. – Estou, Paso. – Murmurou lentamente, girando na cadeira
para observar o caixão. Mantém os olhos fixos no mesmo, sabendo que a conversa
não terminou.
Por
que demorou tanto? Me deixou aqui, sozinha no escuro enquanto se divertia por
aí.
Jean revirou os olhos,
irritada. Passou as mãos pelos longos cabelos rubros e mordeu o lábio inferior,
abaixando a cabeça por um momento. – Eu não estava me divertindo, sabe disso.
Tudo que faço, tudo que fiz, foi para você. – Sua voz era carregada de
sentimentos que não deveriam caminhar juntos. Ela levantou a cabeça e suspirou,
dando as costas aquela que lhe falava.
Eu
sei disso, Vibo. Eu sei... Desculpe. Sinto muito, mas... O tempo não passa
nunca quando você não está aqui.
Então, tão simples como
veio, se foi. A raiva da mulher passava ao ouvir aquilo e uma ternura já
conhecida se instala em seu coração. Lembranças retornam, fazendo-a sorrir
novamente. – Tudo bem. Eu estou aqui agora, estamos juntas. Irei dormir ao seu
lado agora, Paso.. E, além disso, eu trouxe um presente. – Sussurrou, passando
os dedos lentamente por sua obra.
O
que é, Vibo?
A impaciência e surpresa na
voz faz o sorriso da ruiva se tornar mais largo. Ela caminha lentamente até a
cama, subindo na mesma para ficar na altura do caixão suspenso por grossas
correntes. Tubos e fios de todos os tipos estão ligados a caixa de vidro, de
modo que o ar não entre ou saia dali sem que a ruiva assim deseje.
Por um momento o silencio
se faz presente enquanto ela observa o corpo mumificado, imóvel ali. – Você vai
amar. - Murmura enquanto desce da cama e volta para frente da mesa. Ali pega um
controle e começa a apertar uma serie de botões. O caixão reage a cada toque
dele.
Não
vai me contar o que é, Vibo?
Devagar, o caixão vai
descendo. É possível ouvir os tubos de ar fazendo uma serie de movimentos. –
Você já vai ver. – A ruiva parece ansiosa. A musica para e ela nega com a
cabeça, mordendo o lábio inferior. – Precisamos de musica. – Larga o controle,
caminhando em passos apressados ao toca discos.
Não,
Vibo. Depois, agora eu quero...
Impaciente, não deixa que a
frase seja terminada. – Só um segundo, espere, Paso. – Sussurra conforme os
dedos ágeis viram o disco e voltam a posicionar a agulha. A sala se enche com
uma perfeita harmonia instrumental, sem mais vozes, como o momento pede. –
Gosta dessa? – Pergunta, mesmo já sabendo a resposta.
Claro.
Você sabe que eu sempre gostei. Agora me deixe ver o que trouxe para mim, estou
curiosa.
Jean caminha de volta até a
mesa, aperta um ultimo botão no controle e, enquanto ouve a tampa do caixão
sendo levantada por correntes fortes, pega delicadamente sua obra. Agora ela
caminha até a cama com um rosto em mãos. Literalmente, um rosto. A pele que
antes deu expressão a uma linda modelo. Os buracos vazios onde deveriam estar
seus olhos, os lábios cuidadosamente cortados, os cabelos tão brilhantes que
ainda pareciam vivos.
Dessa vez a ruiva apenas se
ajoelha na cama e ergue sua obra, exibindo-a ao corpo. – Aqui. O que achou? –
Murmura, ansiosa e por um momento o silencio lhe violenta os pensamentos, mas a
voz chega, como sempre chegou.
Oh,
Vibo. É tão linda... É para mim?
A felicidade toma o lugar
da ansiedade, seu coração se acelera. – Claro. Vou coloca agora mesmo. – Então
ela se inclina para frente e começa o trabalho. Com extremo cuidado encaixa a
abertura dos olhos aos do cadáver, então nariz com nariz e boca com boca.
Coloca a mão sob a nuca, levantando-a devagar para encaixar a parte de trás da
mascara. Por fim, aproxima as bordas de forma que não formem pregas.
Pronto?
Eu já posso ver?
A voz é cheia de ansiedade.
A ruiva dá um passo para trás, observa o conjunto e pula da cama, caminhando
apressada para a mesa de madeira mais uma vez. – Calma, só falta uma coisa. –
Tira de uma das gavetas um pente e um espelho. Volta rapidamente para a cama e
arruma os cabelos negros que pertenciam a outra pessoa. Por fim, coloca o
espelho a altura do rosto da múmia e sorri.
É
linda... Agora eu estou bonita também, Vibo. Agora eu tenho um rosto, como todo
mundo.
Tais palavras fazem uma
solitária lágrima rolar a face rosada daquela que é uma e nenhuma. Ela afirma
com a cabeça. – Você está perfeita. – Murmura, enquanto passa os dedos
lentamente sobre o rosto novo do cadáver... Jean se levanta e por um momento o
peso do mundo parece cair sobre seus ombros. Seus passos são lentos até a mesa,
onde deixa o pente e o espelho, e pega o controle.
Para aos pés da cama e
começa a apertar botões. A tampa de fecha sem ruídos, mas é possível ouvir o ar
girando dentro da caixa, sendo extraído da mesma e levado para longe dali.
Devagar, o caixão começa a subir para sua posição original, enquanto isso, Jean
se acomoda em sua cama, puxando os lençóis para sobre o corpo e abraçando o travesseiro.
Um click surdo, a musica
para, o disco acabou. Jean corre os dedos sobre o controle, aperta um botão e
uma grossa camada, como uma cortina de ferro começa a se colocar sobre a parede
de vidro que antes mostrava as luzes noturnas de uma cidade que, infelizmente,
raramente dorme. A ruiva bate palmas, as luzes fluorescentes do quarto se
apagam e ela suspira.
Boa
noite, Vibo.
O sorriso é inevitável. O
quarto está escuro, exceto pelas luzes dos aparelhos, pequenos focos vermelhos
e verdes, furtivos como olhos de gato num cemitério. – Boa noite, Paso.
–Sussurrou.
No silencio do tumulo, a
mulher viva desliza para um sono sem sonhos como o sono dos mortos.
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