17 de março de 2015

Kassandra Roux

Kassandra Roux passou a maior parte de sua vida acreditando ser uma pessoa normal e de fato ela era. Filha de um simples casal, a garota nasceu com a pele branca, os cabelos castanhos e os olhos do mesmo tom. Era de uma beleza e graça delicadamente encantadora e não houve no mundo pessoa que não se apaixonasse por ela, quando pequena ou mesmo depois de crescida. Teve uma infância e adolescência normal, com amigos e família.
Agora, chegamos ao ponto em que tudo muda e no qual tudo em que a garota acredita simplesmente não faz o menor sentido.
Kass foi, desde muito cedo, uma garota estudiosa e apaixonada por mitologia. Sabia tudo de todos os deuses possíveis, era sua maior paixão... Aos quinze anos, ela se considerava quase uma especialista no assunto e achava que os sonhos estranhos que estava tendo eram apenas conseqüências das varias horas que passava estudando. Em seus sonhos, alguém a chamava e ela caminhava, em meio a um grande palácio como os que os egípcios construíram. Nos sonhos, ela era chamada por uma voz firme e grave, mas não lhe chamava por Kassandra e sim por Ísis. Não achava o fato estranho e sempre segui a voz por corredores e corredores. Quando Kass despertava estava cansada e exausta mentalmente, um pouco irritada e sem sombra de duvidas bastante confusa.
Por vários anos o sonho se repetia. Noite após noite ela se transformava em Ísis. Conforme o tempo passava, os detalhes do sonho se tornavam maiores. Ela era capaz de se ver envolvida em panos bonitos e antigos. Via-se também com a cobertura de Háthor, o sistro sagrado e o colar Menat. E conforme aquilo se repetia, ia ficando cada vez pior, cada vez mais real... Certa fez Kassandra, no sonho, estava sentada num grande trono, lindamente decorado com pedras preciosas. Vestia, como habitualmente, bonitos tecidos e a cobertura de Háthor, e em seus braços tinha uma pequena criança, um garoto ao qual amamentava cuidadosamente e observava os movimentos suaves. O trono ficava um lugar elevado, uma espécie de plataforma bastante alta. Aos seus pés ela via uma escada e lá em baixo passavam pessoas de um lado para outro, carregando grandes bandejas cheias de deliciosos petiscos, jarras de vinho e água, e vasos ornamentos com lindas flores. Todos os que passavam falavam uns com os outros em demótico. Aconteceria ali um grande banquete, uma festa em homenagem aquela criança que ela tinha nos braços e estava ali justamente para ver se tudo estava sendo arrumado adequadamente. Vez ou outra sua voz se elevará, alta e imponente, no mesmo estranho idioma que os outros falavam.
Naquela noite, quando acordou, ela sabia que a língua que estava falando no sonho, o demótico, era falada do antigo Egito. De alguma forma, ela entendia tudo que estava sendo dito e era capaz de reproduzir, com perfeição, todas as frases que pronunciou no sonho, mesmo sem nunca ter estudado apenas uma só palavra de demótico.
Kassandra acreditava, com todas suas forças, que aquilo iria passar. Que os sonhos iriam lhe abandonar e que ela iria ter novamente noites tranqüilas de sono. Mas, embora ela quisesse muito, não foi isso que aconteceu... Os sonhos se tornavam cada vez mais reais e os cenários variavam, sendo sempre parte do antigo Egito e na maioria das vezes lugares que ela nunca tinha ouvido falar, mas que no sonho via com tamanha riqueza de detalhes que era como se tivesse passado a vida inteira ali. Muitas vezes, inconscientemente, Kass se pegava um ‘tiet’ no canto de seus cadernos; além disso, costumava desenhar os cenários que via nos sonhos e a sua própria imagem, vestida de forma tipicamente egípcia.
No seu ultimo sonho ela se viu com um longo vestido, coroada com o hieróglifo cujo significado era troco. Caminhava nas margens do rio Nilo, com os pés tocando a água gelada. Em seus longos cabelos castanhos estavam trançados conforme era o costume, enfeitados com varias flores de lótus. Seus dedos deslizavam pelo colar Menat, até que novamente uma voz firme começou a chama-lo. Ora a chamava de Ísis, ora a chamava de mãe... Ela continuava caminhando, até que notou que vinha, em sua direção, um homem. Era alto, tinha os mesmos olhos num profundo tom de castanho, quase negro, os mesmos cabelos castanhos e o rosto fechado, decidido. Era forte, trajado segundo o costume e Kass descobriu, pela primeira vez, que era a voz dele lhe chamando. Soube também, no momento em que ficaram a poucos passos, que aquele era o bebê que ela tinha nos braços em outro sonho... O homem pegou as mãos dela e sorriu gentilmente para a garota, começando a falar. Embora o dialogo seguisse em demótico, ela entendia perfeitamente. – Ísis, minha senhora e mãe. – A voz dele era um sussurro firme. Kassandra subiu a mão ao rosto dele e deslizou o dedo pelo contorno de sua bochecha, mas não lhe respondeu. – Tentei fazer, minha senhora, que notasse sozinha quem realmente és. Lamento dizer que não tive sucesso, por isso, vim lhe contar... – Ele fez uma pausa, olhando-a fixamente enquanto esperava uma reação. Quando Kass continuou quieta, ele voltou a falar. – Sou Hórus. – Com aquela afirmação a menina finalmente se manifestou franzinho o cenho.  – O filho de Ísis. – A voz dela era incerta, quase como uma pergunta. – Seu filho, minha senhora. – Quando disse tal coisa, Hórus parecia calmo e confiante. Tão confiante que qualquer pessoa teria acreditado nele.

Naquele momento o sonho mudou. Agora, ela estava parada em uma sala deserta e o único objeto na sala era um enorme espelho. Quando olhava seu corpo, Kassandra se via normalmente, com os cabelos bagunçados, o corpo dentro de uma calça jeans e uma blusa manchada de tinta. Mas, ao seu olhar no espelho, ela via o reflexo dos sonhos, a imponente deusa Ísis com seu jeito confiante, a superioridade que lhe era natural e atrás dela seu filho, sorridente, ainda que a linha de seu sorriso fosse dura e rígida. – És, nessa vida, Kassandra. Mas foi, há muitos anos, minha mãe. A grande deusa Ísis, o modelo ideal de mãe e esposa... – Ele parou de falar por um segundo, como se estivesse esperando para ver se a garota não entraria em choque e foi nesse momento no qual ela começou a falar. – A protetora da natureza e da magia. Amiga dos escravos, pescadores e artesãos. – Agora ela já não parecia assustada. Olhava com atenção o espelho, lembrando-se do que era em sua outra vida, enquanto seu filho continuava a falar. – A deusa da maternidade e da fertilidade. – Naquele momento ele tocou o cabelo dela e desceu os dedos pelo seu colar Menat, que representava a fertilidade. Assim, ela completou os próprios títulos. – A deusa da simplicidade, protetora dos mortos e deusa das crianças. A filha de Geb e Nut. – Quando completou finalmente a frase, ela se virou de frente para ele. Hórus ofereceu a mão para sua mãe. – Por que agora, meu filho? – Era uma pergunta simples, a qual a resposta era ainda mais simples. – Porque apenas agora chegou o momento certo, minha senhora. Vamos agora? Temo que tenhamos assunto que a muito ficaram esperando. - Ísis sorriu e afirmou com a cabeça, dando a mão para seu filho e assim ela caminhou com ele, para fora da sala, que aos poucos voltava ao cenário do inicio, o antigo Egito. Novamente, caminhavam a beira do Nilo. 


Nenhum comentário:

Postar um comentário