25 de fevereiro de 2016

Liesel

Domingo, 09 de Janeiro de 1905.
Era uma manhã fria quando Liesel, como outras cem mil pessoas, saiu de casa. Caminhavam pacificamente em rumo ao palácio de inverno de São Petersburgo, residência do Czar Nicolau II, que havia afundado a Rússia numa crise sem precedentes na historia.
Toda a população estava insatisfeita. Havia fome, desemprego e morte por todos os lados. Até mesmo a família Hans, que era de uma classe econômica confortável, estava ali, indignada com tudo que acontecia a seu povo e país. Liesel não concordava com os ícones santos da igreja ortodoxa que eram exibidos no meio da manifestação, muito menos as pessoas que passavam na rua e lhe faziam o sinal da cruz, mas entendia que aquilo mostrava o quanto eram pacíficos.
Seus pais, na linha de frente da manifestação, carregavam orgulhosos a petição por melhoras com 130 mil assinaturas, a maioria tendo sido conseguida por eles próprios, Elizabeth e Yuri Hans. Sua filha ia bem mais atrás, perdida no meio dos pensamentos de ódio que nutria pelo czar. Tudo que ruim que vinha acontecendo na vida da loira era culpa daquele monstruoso imperador.
Ao longe, já era possível ver a estrutura do palácio e assim que se aproximaram do mesmo, os primeiros tiros foram ouvidos. Foi tudo rápido demais, um turbilhão de sons agudos, gente correndo, vozes desesperadas gritando e o mundo sendo tingido de vermelho. Embora tentasse lutar para chegar até a linha de frente, chegar até seus pais, a multidão puxava a menina em todas as direções, afastando-a ainda mais de seu objetivo.
Passado duas horas, a multidão já havia de dispersado. Liesel voltou para casa, mas encontrou o imóvel no mesmo estado em que estava quando saiu. Completamente vazio. Foi assim, correndo e com o coração na boca, que ela voltou para a pior cena de sua vida. Os corpos ainda estavam caídos aos montes na rua, alguns pisoteados ao ponto de não serem reconhecíveis. Os guardas ainda estavam lá, com as armas em mãos, mas não fizeram nada diante do horror da loira que, em passos lentos, começou a procurar rostos conhecidos em meio aos mortos e infelizmente, encontrou.
Seu pai estava deitado no meio da rua, um ferimento grande no pescoço, o braço esmagado como se um bilhão de pessoas tivesse pisado no mesmo. Já Elizabeth, sua amada mãe, estava sentada próxima a uma arvore, com um ferimento no tórax que sangrava muito... Ao se aproximar, Liesel percebeu que a mãe ainda respirava, e tentou, em vão, levantar a mulher. – Não, minha pequena, não... Pegue isso e entregue ao seu padrinho, ele saberá o que fazer. Vá logo, antes que eles mudem de ideia e lhe matem também! – A voz da mulher era muito baixa, rouca. E juntando todas suas ultimas forças, a morena colocou a petição, manchada de sangue inocente, nos braços da filha.
Desolada, a menina só soube chorar, abraçada ao corpo já sem vida de sua mãe. E não conseguiu dizer quantas horas se passaram até que chegasse a equipe para retirar os corpos do lugar, forçando Liesel a se separar dos pais e voltar para a casa com uma petição inútil e um buraco enorme onde deveria estar seu coração. Buraco esse que foi preenchido pelo ódio que alimentava do Czar. Naquele dia, Liesel jurou vingança a qualquer preço.



Quarta-feira, 14 de março de 1917.
Doze anos se passaram desde que Liesel perdeu toda sua humanidade e passou a ter dentro de si apenas a raiva, e a vingança passou a ser seu único objetivo. Ela faria Nicolau II perder tudo, começando pelo reinado.
Sozinha no mundo, a menina passou a buscar meios para conseguir sua vingança. Encontrou, por acaso, um homem que lhe ofereceu ajuda para sustentar-se e prometeu lhe ensinar meios de conseguir o que queria. Para isso, ela só precisava casar com ele. Ivan Krolling  era um homem gentil, de feições simples, embora não feias. Ao final, casar-se com ele não foi um grande sacrifício depois de tudo que lhe foi ensinado.
Mas Liesel era uma garota bonita, alias, era uma garota linda. Cheia de desejos pecaminosos, que despertaram o interesse de muitos homens, pobres e ricos, embora apenas os ricos acabassem em sua cama... Para sua felicidade, ou infelicidade, um certo demônio também ficou interessado naquela beleza e no instinto natural e perverso.
Naquela noite, quando as estrelas apareceram, mas a lua não foi vista, Liesel saiu e caminhou por muito tempo, enfiando-se na mata até encontrar uma clareira de tamanho considerável. Ali, longe de todos os olhos humanos, despida completamente, a loira traçou um pentagrama no chão e acendeu treze velas negras. Em pé ao centro do pentagrama, com o livro em mãos, passou a entoar lentamente as palavras que lhe foram ensinadas, invocando aquele que deveria conceder sua vingança. E ele veio, mas não sozinho.
A sua esquerda formou-se a figura de Alastor, o demônio da vingança e do crime. E tão logo a presença dele fez-se presente, surgiu outra, muito mais forte e imponente. Era Asmodeus, o demônio da luxuria, um dos sete príncipes. – NÃO OUSE! – Ele murmurou, a voz poderosa. – Não fale com ela. Ela é minha! Não me importa que ela tenha te invocado, pois posso realizar os desejos de Liesel muito melhor do que você jamais poderia. – A figura humana fez um meio circulo, caminhando lentamente em direção ao outro. – Eu a observei durante algum tempo e ela será minha. – Prometeu.
Diante das ameaças do príncipe, Alastor retirou-se tão subitamente quanto veio e Asmodeus virou-se para Liesel que permanecia imóvel no centro do pentagrama. – Liesel, Liesel, Liesel. – A voz dele era sensual e a loira quase era capaz de esquecer o motivo de estar ali. – Invocando um demônio menor quando és, obviamente, minha? Achou mesmo que eu iria perder sua alma? – Enquanto falava, ele caminhava em direção a ela. Os passos lentos, o corpo tornando-se visível a medida que se aproximava.
Liesel não era capaz de acreditar em como aquele príncipe era bonito. Era apenas um disfarce, ela sabia, mas era lindo. Tinha os músculos todos bem definidos, o queixo bem desenhado e uma barba por fazer, exatamente da forma que mais lhe atraia e ela perdeu-se nos olhos negros ele. Ali, via-se cenas de sexo e violência mutuamente e a loira encarava-o sem medo algum. – Diga-me o que quer. – Ele murmurou, o corpo a centímetros do dela. – Vingança. – A voz dela era firme. – Quero que czar Nicollau pague pelo que fez. Que perca o reinado e a família, como aconteceu comigo. – Os olhos azuis dela faiscavam com a raiva.
Asmodeus riu. Uma gargalhada genuína. Segurou o queixo da menina, olhando-a de cima a baixo, analisando seu perfeito corpo nu. – Não pede nada que eu não possa fazer, é verdade. Mas tudo tem um preço... Eu vou realizar seu primeiro desejo e em troca, será minha escrava. Se fizer isso bem, eu lhe darei o segundo desejo. – A voz dele não admitia discussões e Liesel apenas afirmou com a cabeça, sorrindo de lado. – Me parece um ótimo acordo. – Murmurou. Era claro que lidar com demônios para especialmente perigoso e que ela, provavelmente, não sabia ao certo onde estava se metendo, mas aquilo não tinha a menor importância. Liesel iria ao fim do mundo por sua vingança.
Para selar o acordo, o príncipe beijou a russa com uma veracidade que ela desconhecia e lhe possuiu ali mesmo de forma tão violenta que, horas depois, Liesel ainda estava deitada no chão gélido, nua. O sol começava a tingir o mundo de dourado quando ela se sentou e observou o próprio corpo cheio de manchas roxas, marcas profundas de mordidas e inteiro dolorido. Aquela havia sido a noite a primeira de muitas noites na qual, em êxtase nos braços de Asmodeus, a loira se permitiu ser consumida e praticamente violentada.
Como prometido pelo demônio, em 15 de março, o dia seguinte ao encontro com Liesel, czar Nicollau II abdicou de seu trono e dali em diante, seu destino foi selado. A loira se tornou, para o resto da eternidade, a escrava mais devota do príncipe.
Quarta-feira, 17 de Julho de 1918.
Pelos próximos 16 longos meses, Liesel foi a escrava de Asmodeus. Não apenas no sentindo sexual, ela fazia milhares de coisas para o demônio e as vezes, a mando dele, até seguia ordens de demônios de patentes mais baixas.
Ainda sim, o príncipe consumiu a loira até a ultima gota de sua essência, pois ela era diferente. Ela era inteiramente perversa, de um jeito que poucas vezes é encontrado e que por muitos é cobiçado. Liesel era má do jeito que poucos humanos são capazes, uma maquina de sexo e morte.
Aos 22 anos, com a saúde frágil, ela recebeu a noticia que czar Nicollau estava morto, que havia sido executado junto com toda sua família e esse dia, no mesmo dia da morte de seu maior inimigo, Liesel partirá também. Aquela foi a ultima vez que ela virá Asmodeus. O príncipe apareceu para lhe tomar pela ultima vez, fazendo com que a garota se tornasse uma succubus.
Atualmente
Liesel acreditou que sua morte humana significasse liberdade, mas estava errada. Embora raramente seja convidada a cama de Asmodeus, ela ainda lhe é uma serva fiel e devotada. Lie segue as ordens do principe em parte por obrigação e em parte pela gratidão da vingança que lhe foi concedida.
Ao longo de varios anos servindo Asmodeus, a succubus se tornou uma das preferidas do principe, sendo praticamente seu braço direito. Naturalmente sensual e cruel, Liesel vaga pelo mundo todo atendendo os pedidos de seu Mestre.

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