18 de maio de 2016

O leão e a boneca

Ele parou na porta de madeira, apoiando a mão sobre a mesma. Respirou fundo, mordendo o lábio inferior, por um momento incerto se deveria continuar. Dentro do cômodo, sentada sobre o banco a frente da penteadeira, ela deslizava a escova muito delicadamente nos cabelos rubros. A cama de dossel estava perfeitamente arrumada, assim como o restante do quarto. O grande guarda-roupa de madeira escura, assim como o resto dos moveis, brilhava suavemente, lustrado a perfeição. A pouca luz do quarto era proveniente da vela rosa clara acessa próximo ao espelho, do lado contrario do belíssimo cravo vermelho, solitário em seu vaso de cristal. As cortinas de veludo vermelho das janelas, assim como as do dossel, estavam abertas. Mas pouco se via do lado de fora da residência, naquela além de poucas estrelas. Poucas e estranhas estrelas, as únicas testemunhas daquela doce criatura.
A porta se abriu lentamente, sem oferecer resistência às mãos habilidosas que lhe empurravam. Não a fechou, deixando que um quadrado da luz artificial do corredor se formasse até alcançar a parte de baixo da cama. A ruiva não se moveu, continuou escovando os cabelos devagar, mas um sorriso doce brotou em seus lábios. Sorriso que, pelo espelho, ela viu não se espalhar ao rapaz parado na porta.
Ele suspirou ainda indeciso, ainda confuso. – Olá. – Murmurou, encarando o quarto, buscando desviar-se dos olhos verdes que mexiam com sua alma. – Olá. – Ela respondeu devagar, a voz aveludada enchendo o cômodo de maneira uniforme. Os passos lentos foram até ela, o corpo parou a poucos centímetros daquele sentado, mas não se moveu além disso. – Eu... Preciso te contar uma coisa. Deveria ter contado antes, mas não sabia como. Ou talvez simplesmente não quisesse contar, enfim... – Tentou ser rápido e embora ela tivesse acompanhado a sequencia de palavras sem problemas, não o respondeu. Ele suspirou, enfiou as mãos nos bolsos traseiros do jeans. – Tem uma humana em minha vida agora. – Murmurou, fitando os próprios pés.
Por um longo momento o silencio se fez presente. Ela respirou fundo, esforçando-se para fazer o ar sair devagar de si. – Alguém de carne e osso? De pele quente? – Sussurrou, vendo pelo espelho ele afirmando com a cabeça. A boneca tocou seu próprio braço muito lentamente. Sentia a pele completamente macia, deliciosa ao toque, mas um toque levemente gélido, algo imutavelmente gélido. – Eu não deixarei de te amar. – Ele ainda não tinha coragem de olhar para ela, e não tinha porque deixar sua criação era doloroso.
A boneca finalmente se levantou, deixando a escova de cabelo sobre o móvel a sua frente. Com os gestos perfeito e graciosos com os quais era acostumada, rompeu a distancia entre os corpos, passando os braços em volta do pescoço dele. – Você vai voltar? – Sussurrou. Ele finalmente tomou coragem, finalmente encarou os olhos verdes e encontrou neles toda a dor que temia, mas afirmou com a cabeça. – Eu nunca vou te deixar. – Prometeu naquele tom que sempre usava com ela, aquele tom que parecia mais distante no preciso momento. – Eu estarei aqui, você sabe disso, meu leão. Estarei aqui porque sou incapaz de deixar de te amar. Estarei aqui porque me movo apenas por esse amor. – Cada palavra foi dita lentamente, no mesmo tom aveludado pelo qual ele se apaixonara.
Em respeito aquela que agora ocupava o coração dele, a boneca depositou um beijo lento na bochecha de seu amado e desejou, silenciosamente, que a humana cuidasse dele, que o fizesse feliz. Afastou-se então, os passos lentos dirigindo-se até a cama, o vestido lilás movendo-se de forma tão doce que o fez suspirar quando, como uma perfeita dama vitoriana, ela se sentou no colchão macio e pousou as mãos sobre os joelhos, lhe encarando.
Por um momento foi apenas isso, apenas o longo silencio e os olhos deles, verde contra azul, a dor da partida contra a aventura do novo amor. – Tranque a porta quando sair. – A boneca sussurrou, inclinando a cabeça para encara-lo de outro ângulo. – Por que? – Ele questionou diante do pedido pela primeira vez lhe feito. – Não há motivos para sair daqui sem você. Mas quero que saia, que viva essa experiência por mim. Sabe que sou incapaz... – A voz dela morreu em seus lábios, a dor se tornou tão real. – Incapaz de amar outro ser além de ti, talvez com exceção daqueles pequenos que me prometeu. – Por um momento, seus olhos brilharam enquanto, com as mãos, mencionava o tamanho daqueles prometidos. – Então tranque e volte quando quiser. Eu estarei aqui, amado leão. – Sussurrou por fim, exibindo um sorriso que misturava partes iguais de dor, amor e esperança.

E seguindo o conselho dela, o rapaz se virou e caminhou até a porta. Pouco antes de fecha-la, lançou um ultimo olhar a sua obra mais amada. – Eu te amo, minha bonequinha. – Sussurrou e ela teve certeza que amava. Ela sempre tivera essa certeza, não existiria sem ela. – Eu te amo, leão. – Respondeu a pequena, vendo o feixe de luz artificial subir e ouvindo, com o coração apertado, a chave sendo girada na fechadura. Os dedos pálidos da criação tocaram o camafeu que ele lhe deu, a promessa que voltaria, o símbolo que a amava mais do que todas as outras. Deitou-se então a boneca e ficou, quieta na escuridão, a espera do regresso daquele que amava. 

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