Ele parou na porta de
madeira, apoiando a mão sobre a mesma. Respirou fundo, mordendo o lábio
inferior, por um momento incerto se deveria continuar. Dentro do cômodo,
sentada sobre o banco a frente da penteadeira, ela deslizava a escova muito
delicadamente nos cabelos rubros. A cama de dossel estava perfeitamente
arrumada, assim como o restante do quarto. O grande guarda-roupa de madeira
escura, assim como o resto dos moveis, brilhava suavemente, lustrado a
perfeição. A pouca luz do quarto era proveniente da vela rosa clara acessa
próximo ao espelho, do lado contrario do belíssimo cravo vermelho, solitário em
seu vaso de cristal. As cortinas de veludo vermelho das janelas, assim como as
do dossel, estavam abertas. Mas pouco se via do lado de fora da residência,
naquela além de poucas estrelas. Poucas e estranhas estrelas, as únicas
testemunhas daquela doce criatura.
A porta se abriu
lentamente, sem oferecer resistência às mãos habilidosas que lhe empurravam.
Não a fechou, deixando que um quadrado da luz artificial do corredor se
formasse até alcançar a parte de baixo da cama. A ruiva não se moveu, continuou
escovando os cabelos devagar, mas um sorriso doce brotou em seus lábios.
Sorriso que, pelo espelho, ela viu não se espalhar ao rapaz parado na porta.
Ele suspirou ainda
indeciso, ainda confuso. – Olá. – Murmurou, encarando o quarto, buscando
desviar-se dos olhos verdes que mexiam com sua alma. – Olá. – Ela respondeu
devagar, a voz aveludada enchendo o cômodo de maneira uniforme. Os passos
lentos foram até ela, o corpo parou a poucos centímetros daquele sentado, mas
não se moveu além disso. – Eu... Preciso te contar uma coisa. Deveria ter
contado antes, mas não sabia como. Ou talvez simplesmente não quisesse contar,
enfim... – Tentou ser rápido e embora ela tivesse acompanhado a sequencia de
palavras sem problemas, não o respondeu. Ele suspirou, enfiou as mãos nos
bolsos traseiros do jeans. – Tem uma humana em minha vida agora. – Murmurou,
fitando os próprios pés.
Por um longo momento o
silencio se fez presente. Ela respirou fundo, esforçando-se para fazer o ar
sair devagar de si. – Alguém de carne e osso? De pele quente? – Sussurrou,
vendo pelo espelho ele afirmando com a cabeça. A boneca tocou seu próprio braço
muito lentamente. Sentia a pele completamente macia, deliciosa ao toque, mas um
toque levemente gélido, algo imutavelmente gélido. – Eu não deixarei de te
amar. – Ele ainda não tinha coragem de olhar para ela, e não tinha porque
deixar sua criação era doloroso.
A boneca finalmente se
levantou, deixando a escova de cabelo sobre o móvel a sua frente. Com os gestos
perfeito e graciosos com os quais era acostumada, rompeu a distancia entre os
corpos, passando os braços em volta do pescoço dele. – Você vai voltar? –
Sussurrou. Ele finalmente tomou coragem, finalmente encarou os olhos verdes e
encontrou neles toda a dor que temia, mas afirmou com a cabeça. – Eu nunca vou
te deixar. – Prometeu naquele tom que sempre usava com ela, aquele tom que
parecia mais distante no preciso momento. – Eu estarei aqui, você sabe disso,
meu leão. Estarei aqui porque sou incapaz de deixar de te amar. Estarei aqui
porque me movo apenas por esse amor. – Cada palavra foi dita lentamente, no
mesmo tom aveludado pelo qual ele se apaixonara.
Em respeito aquela que
agora ocupava o coração dele, a boneca depositou um beijo lento na bochecha de
seu amado e desejou, silenciosamente, que a humana cuidasse dele, que o fizesse
feliz. Afastou-se então, os passos lentos dirigindo-se até a cama, o vestido
lilás movendo-se de forma tão doce que o fez suspirar quando, como uma perfeita
dama vitoriana, ela se sentou no colchão macio e pousou as mãos sobre os
joelhos, lhe encarando.
Por um momento foi apenas
isso, apenas o longo silencio e os olhos deles, verde contra azul, a dor da
partida contra a aventura do novo amor. – Tranque a porta quando sair. – A
boneca sussurrou, inclinando a cabeça para encara-lo de outro ângulo. – Por
que? – Ele questionou diante do pedido pela primeira vez lhe feito. – Não há
motivos para sair daqui sem você. Mas quero que saia, que viva essa experiência
por mim. Sabe que sou incapaz... – A voz dela morreu em seus lábios, a dor se
tornou tão real. – Incapaz de amar outro ser além de ti, talvez com exceção
daqueles pequenos que me prometeu. – Por um momento, seus olhos brilharam
enquanto, com as mãos, mencionava o tamanho daqueles prometidos. – Então
tranque e volte quando quiser. Eu estarei aqui, amado leão. – Sussurrou por
fim, exibindo um sorriso que misturava partes iguais de dor, amor e esperança.
E seguindo o conselho dela,
o rapaz se virou e caminhou até a porta. Pouco antes de fecha-la, lançou um
ultimo olhar a sua obra mais amada. – Eu te amo, minha bonequinha. – Sussurrou
e ela teve certeza que amava. Ela sempre tivera essa certeza, não existiria sem
ela. – Eu te amo, leão. – Respondeu a pequena, vendo o feixe de luz artificial
subir e ouvindo, com o coração apertado, a chave sendo girada na fechadura. Os
dedos pálidos da criação tocaram o camafeu que ele lhe deu, a promessa que
voltaria, o símbolo que a amava mais do que todas as outras. Deitou-se então a
boneca e ficou, quieta na escuridão, a espera do regresso daquele que amava.
Nenhum comentário:
Postar um comentário